terça-feira, 7 de outubro de 2014

Reinozinho


Numa noite quando todos já dormiam, ouço o zumbido do vento, que vem contar coisas airosas a meu favor. Revejo em minha presteza aquela cena clara e comovida me ponho a recordar.


Eram dias onde as manhãs se faziam plenas e o aroma das macieiras adentrava todos os aposentos daquele lar.
Era uma quinta, antiga propriedade bem conservada. Não havia rudeza ou tampouco opulência, era um simples lugar de candura que ainda vive e convive dentro de mim.
Eram dias festivos aqueles que ali passei, pois os tenho como o melhor abrigo que nesta vida já tive.
Muitos lírios adornavam o jardim. Cravinas e camélias eram tão viçosas e todos compunham uma roda para conversar.
Numa varanda minha avó cultivava preciosos ciclames, que para mim eram pequenas suntuosidades.
Lembro dos pequenos biscuits, como também das agulhas de crochê , que teciam longas mantas e todos que queriam aquela senhora bondosa tinha a delicadeza de ensinar.
Lembranças doces como doces eram aqueles tempos inolvidáveis, onde uma ternura sem fim me abençoava.
As paredes daquela casa em minha tenra idade pareciam rochedos, tal era a certeza de ser amada e muito abrigada.
Nas manhãs de inverno, ao redor do fogão à lenha, vovó me enrolava em um cobertor xadrez e servia café com bolinhos tão tenros, que não há nenhum chef astuto o bastante, que consiga sequer imitá-los.
O pequeno riacho corria nos fundos da casa, bem atrás do pomar, onde uvas, laranjas, figos e marmelos eram apreciados de acordo com as variações sazonais.
Delícia ouvir o trinado dos pássaros e em pequenos trabalhos de auxílio era comum entregar-nos.
Eram tardes douradas pelo sol que se punha, contemplado da varanda, onde as silhuetas dos pinheiros esmoreciam, até se tornarem negras, tendo o sol por contraluz.
Festa, juventude e frescor podem vir de pequenos encantos, sem ter a necessidade ávida de tantos aparatos.
Quando se tem o amor e a conciliação por cobertura, a casa fica impregnada de uma atmosfera indescritível.
Era como se uma lareira acessa estivesse a nos aquecer por todo o dia, tamanho o calor que emanava do seio daquela frágil criatura, que sabia como ninguém nos mimar e envolver em seus encantos.
Tudo se agiganta e a postura mais utilizada era os incessantes esforços para que fôssemos felizes, assim como éramos. Frágeis crianças cuja companhia era o maior presente que a vida entregou.
Valorizar os descendentes com laços de afeto e ternura vem a ser uma marca  que em nós fica gravada à ferro e fogo. Nenhum tempo, por mais tormentoso que seja, vai conseguir fazer estes ternos laços esquecer.
Minha avó foi para mim uma figura feminina significativa. Filha de imigrantes de costumes austeros e conservadores, soube nos deixar uma herança, que o tempo não corrói, tampouco a traça consome, pois está lacrada no imo de nosso ser.
Ser avó é também saber compreender que o mundo sabe ser terno.
E com açúcar e esperança construiu um ninho, um reinozinho tão doce e terno que açulo em descrever.